segunda-feira, 9 de agosto de 2010

olha só

Você é tão triste, ou pelo menos é o que parece ser, e eu , eu não gostaria de dizer isso, mas eu preciso tanto cuidar de alguém... Sabe, já não se trata de amar. Eu vejo a diferença nas tuas fotos, e sabe, você entristeceu nas últimas e isso poderia me preocupar se você quisesse. Eu te faria carinhos e com o tempo, eu iria aprender a amar o comprimento dos teus cílios e o tamanho dos teus olhos, eu me conheço mas não me entendo, sabe, eu ainda não entendo a minha esperança persistente na vida, nos homens, mesmo. Mas antes eu só preciso de um teu sinal, é simples, toma um rosto e me olha, faz dos teus olhos um farol que me permita sair do escuro, eu posso garantir que nem tudo que fica oculto no escuro é de todo ruim, deus, eu ficaria a noite toda acariciando teu rosto, eu tentaria de novo o que antes não deu certo, e se a gente quisesse, eu ia tatear e tatuar a tua face nos meus dedos, na minha mente.


Desculpa, é que eu realmente, eu realmente... sim, e antes já me chamavam de obsessivo, mas não acho que seja um erro respeitar a intensidade do que se sente! Sabe que, às vezes, eu acho que isso tudo é egoísmo... já reparou quantas vezes eu disse eu, pra você? Não entendo mas acho que é egoísmo querer alguém somente pra poder se doar, ai isso eu não entendo bem e não quero mais falar. Mas meu deus, pelo menos você me ouviu inteiro agora, eu continuo aqui e nada em mim é grandioso, eu acho que to te esperando, então, toma um rosto e vem me olhar, a gente até poderia se abraçar e tudo mais, eu vou ficar por aqui imaginando e sorrindo. Hei, eu to te esperando tá?


Preciso tanto cuidar de alguém, mas nunca entendi a minha escolha de me deixar de lado.

sábado, 7 de agosto de 2010

Essas agonias e incômodos são tão comuns quanto essas necessidades inexplicáveis e nossa sede por compreensão... isso é se estranhar, e se estranhar é sinal de mudança, de crescimento. Estamos assim, cada vez mais próximos da plenitude, e mais somos capazes de ver o quanto a plenitude é incomensurável e cada vez mais incomensurável. Estamos periodicamente entre a grandeza e pequenitude. Mas por quê? Eu não sei. Meu querido, não há lógica que seja exata.
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pra você, emudeço na mais sincera demonstração afetiva que não se diz.

domingo, 11 de julho de 2010

__________I – Tudo conspirava pra que ele só fosse embora ao momento exato em que foi, não no momento que havia planejado. O destino o fez adiar – duas vezes – sua partida. O sono e a solidão – com quem ele sempre pode contar – o abraçavam enquanto o tempo corria num momento escuro em que não existia “lá fora” e essa foi uma das raras vezes em que não se sentiu de todo só, desejando sua solidão. Mas foi chegado o momento exato e ele partiu. O amargo saltava de seus olhos, acinzentando o dia. A música que ouvia – o único som – matinha seus olhos sempre úmidos, com a umidade de uma pessoa triste. A umidade dos olhos almejava ser o próprio mar, que era admirado da janela, num retrato vivo, numa regressão de tempo e espaço e fatos. O mar sem sol e suas ondulações, essa era a analogia da plenitude que tanto se sonha, mas sabe-se também que é inalcançável. O céu coberto de nuvens era a analogia de sua própria vida. Como sempre gostou de fazer analogias! O momento certo, em que o seu lhe soprava que mesmo com as nuvens a claridade chegava à superfície. E antes que pudesse compreender, depois da curva, no céu, as nuvens cortadas revelam o céu numa escala de azuis, a analogia acalmou o coração e ele estava estável. Como numa cena final de um filme, já era hora de acabar, sem pensar no depois, era hora do fim e isso era tudo. Ele foi embora, porque não podia ficar.

domingo, 4 de julho de 2010

o cheiro na ponta dos dedos

Hoje, pela manhã, eu percebi como eu tô livre pra me permitir ver em alguém o que eu vi - ou ainda vejo, já não tenho tanta certeza - com aquele de outrora.
Eu lembro do cheiro do ar abafado que não circulava, ele ainda tá na ponta dos meus dedos, enquanto eu segurava com precisão os lençóis e as fronhas, eventualmente encostando nos dedos dele e, eu lembro, eu me permiti explosões químicas resultantes do toque das nossas peles. Ele já não é mais o mesmo ele de outrora, ele já não é mais ninguém ainda. JÁ não é mais ninguém AINDA, o anacronismo me remete a um estado de conclusão de ideia. Minha respiração fica mais forte encostada nos meus dedos, eu não quero esquecer do quanto eu tô livre, eu quero cheirar os meus dedos e lembrar de hoje.
Eu permiti deixar meus olhos abertos, eu permiti guardar a forma do teu rosto, do teu corpo na minha mente. Eu permiti saber dos teus cílios e das tuas sobrancelhas, como eu amo teus cílios e tuas sobrancelhas!, seja lá quem tu fores. Eu permiti ouvir a tua respiração forte e cansada do meu lado, eu permiti sincronizar nossas respirações e dormir com o corpo milimetricamente calculado, no meio do caminho, nem entrega nem resistência, mas sentindo o calor de um corpo que pulsou vida, que jorrou vida em mim e então parece que eu voltei à realidade.
Nem feliz, nem triste, não amo ele de outrora e nem ele que ainda não existe. Não agora. De fato e só agora eu descobri que eu amo é a minha capacidade de amar, eu amo o filtro pelo qual eu sinto as coisas, com uma capacidade imensa, amo poder ativar o macro e medir o tamanho dos teus cílios, ah, teus cílios. Com uma capacidade imensa pro bem, e pra autodestruição, ainda não entendo como, mas eu amo isso tudo.
Que importa fazer sentido, se a vida em si não se explica?

sábado, 26 de junho de 2010

nós

Eu não entendo a gente. Às vezes eu não me entendo. Mas sobretudo quem eu mais gostaria de conseguir entender é você. Entender por que dentro das tuas falas existem tantos “ai sei lá.”, tantos “ai, deixa.”, tantos “ai, não sei.”. Entende o que isso significa? Eu queria que meus dedos que te alisam funcionassem como um bisturi, te abrindo e te deixando exposto pra mim e então eu ia entender o que essas tuas palavras manjadas querem esconder. Eu queria te abraçar e parar ou pelo menos saber o porquê das tuas movimentações que entregam o teu incômodo, é bonitinho e pode ser só uma coisa infantil, mas o que eu quero agora é te entender inteiro. Eu ainda vou entender os teus bloqueios e por que ages tão racionalmente. Não pra que eu mude a tua história e te faça correr pra mim, ou não só por isso, mas principalmente pra que tu consigas ser ainda melhor. Ai eu acho que não deveria fazer isso, eu vou te amar mais ainda, vai ser insustentável.
Talvez eu prefira continuar entendendo nada. Pra que entender se ocasionalmente eu posso ultrapassar a realidade, desregular o tempo, alterar o espaço ao teu lado? Tantas horas e ainda foi tão pouco... é o que a nossa intensidade nos permite. Nossa, como é que eu explico a nossa intensidade?... Eu só posso dizer que a nossa relação é acima do comum, depois de tudo, de todos os nossos ‘tudos’, eu garanto que isso é nosso. Isso é nosso, só nosso.
Um parágrafo inútil, dizer que talvez a solução seja não entender, e tentar explicar o que eu não entendo. Acima do compreensível. Acima das tortuosidades humanas. Apenas acima. Essa é a força da nossa história, essa é a nossa história. E num outro dia quem sabe nos reconhecemos e podemos dar vida a essa nossa história, o nosso ciclo de construção e destruição, o meu amor e ódio.

terça-feira, 22 de junho de 2010

olhar

Por que é tão forte quando teu olhar olha no meu? Será que só eu sinto a força dessa intensidade? Será que só eu explodo completamente por dentro, e toda a minha vida, tudo que eu já tive, toda minha memória, minhas qualidades e minha história, vai tudo pra esse buraco negro que me toma inteiro, tentando conter a minha vontade de correr e te abraçar e nunca mais sair do teu lado! Será que só o meu mundo para completamente? Só na minha cabeça os corrimãos derretem e as escadas me levam pra lugar nenhum, o chão fica macio? Eu queria viver eternamente olhando nos teus olhos, pra ver se assim eu conseguiria entender o que se passa por dentro de ti. O espelho da tua alma, dizem né.
Será que de nós dois, só eu sinto falta de ter os teus olhos me olhando? Deus, não pode ser só de uma parte que essa ligação grandiosa depende e necessita! Eu não poderia construir isso tudo, mesmo o que eu sinto, sozinho! Se a gente se olha eu digo que te amo, eu vejo o mesmo nos teus olhos! Por que esse, o mais verdadeiro dos elos, não é lei pra nós?
É tudo isso que grita na minha cabeça, iluminado pelas luzes amarelas de um poste e esquecido pela penumbra entre um e outro. Eu volto pra casa sozinho, eu vejo tudo mas com um olhar vazio e úmido que mesmo sem poder, que mesmo sem querer de fato vive a procurar teus olhos em qualquer vão frio que são os lugares onde tu não estás.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um passarinho

Esses dias meu pai chegou aqui em casa e apertou a campainha. Eu sabia que ele viria, mas ainda assim fui surpreendido. Como quando eu era criança, quando minha mãe chegava em casa e eu ainda não tinha lavado a louça – apesar da bronca, todos os dias, a louça ficava à espera da campainha. Mas voltando àquele dia, como nos dias anteriores, algo tinha mudado dentro de mim. A minha sensação de tristeza agora tinha se tornado uma amargura, a casca da ferida, aparentemente a cura, mas a dor ainda pulsa por dentro, sem sangue e sem choro. Esse era eu, correndo pra atender a campainha.

Abri a porta e meu pai falava frases que justificavam o fato de estar com uma gaiola na mão e um sorriso besta no rosto, “a casa de não sei quem pegou fogo e ele iria abandonar esse passarinho” e coisas como “agora tu tens um amigo pra cuidar”, aquelas frases que meu pai sempre disse e que eu nunca gostei, sequer acreditava no teor ou dava importância, preferia ignorar mesmo.

Era surreal e ao mesmo tempo muito rápido pra mim, eu não entendia e algumas vezes eu perguntei “por que não soltá-lo?”. A essas horas eu indagava olhando pra gaiola, em cima do balcão. Não quis que ele ficasse pendurado na parede, assim parecia mais preso ainda. Com o tempo, e com alguma dificuldade, eu consegui compreender que ele sempre esteve preso. Hoje, ele não seria capaz de viver a imensidão e a força da realidade. Talvez nem eu seja. Talvez por isso, e por compreender agora tal fato, nos encarávamos, eu e o pássaro. O tempo, que tinha antes desacelerado, agora era uma pausa.

Aqueles olhos inexpressivos, de alguma forma me fitavam até piscar, sem dizer nada que fosse direto, mas óbvio, ele é um passarinho e qualquer coisa que eu pudesse interpretar seria incoerente. Ou não. Eu olhava pra ele e tudo que eu podia sentir era tristeza. Ele pouco se movia, eu então, estático. Um momento de eternidade, enquanto meu pai fazia ou falava algumas coisas que eu não me lembro. E naquela troca, no mínimo uma troca de olhares eu me doava além do compreensível, todo o meu pesar expelia lágrimas, que meu pai nem percebeu, em seu ritmo habitual. Estranheza. Eu e um pássaro, tão distantes e ao mesmo tempo, num fluxo e numa entrega pura e sensível. Mas que besteira.

Isso foi forte demais pra mim, e algum tempo eu fiquei sem pensar. Alguns dias, e eu preferia ignorar aquela presença. No fundo, é medo, do que eu ainda não tive coragem de tornar fluxo de consciência. Até agora não tive. Como é triste a existência que está tão distante da plenitude. Que jamais pode tê-la. Que no máximo ouve e vê o que tem depois da janela como um quadro inexplicável. Conhece mas não pode fazer parte. O pássaro? Também ele, mas eu me referia a mim agora.

Ai, hoje eu ouvi que a vida não é justa. Eu disse: e quem foi que falou que era pra ser? A falta de sentido da totalidade me assusta. A grandeza da totalidade me assusta. Prefiro calar.