domingo, 15 de maio de 2011
pensar em voz alta II
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Pensar em voz alta I
sábado, 23 de abril de 2011
plebeu mal-cheiroso
Você me disse 'eu fujo de lá e você corre pra lá' e eu só pude achar que isso tinha, digamos, uma força literal; digamos que eu poderia escrever sobre isso com um sorriso sacana no rosto, bem do jeito que eu gosto. Aliás eu adoraria que você deixasse de ser interessante. Porque a tua beleza já me cansou faz tempo (tirando que tuas tatuagens estimulam em mim um fetiche que eu gosto de chamar de obscuro. Naquela época não tinhas - graças a Deus, porque eu iria mais longe, sabe-se lá onde.). Eu já conheci uns trinta e seis caras do teu tipo mais gostosos que você. A beleza em si é previsível e, meu bem, você já perdeu a pose faz tempo.
Mas, sabe? Eu não sei. Eu queria saber. Eu ainda despendo tempo aqui, escrevendo sobre o nosso desencontro. Eu ainda faria esforço pra você dormir lá em casa. Eu voltava 'de lá' mais cedo. Porque o fato de você ser um mistério indecifrável - e que assim seja, meu bem - cria entre nós um abismo. Sempre a um triz ou um abismo de poder conhecer, deveras: conhecer para dominar. A sua beleza é a mesma - tirando suas tatuagens mal feitas - mas você se torna cada dia interessante de outro jeito, do jeito que eu adoraria conhecer. Das suas novas frases e fases, das suas novas músicas e dúvidas, das suas novas drogas e fodas. Sempre novas. Sempre indefinidas. Sempre um 'eterno vir-a-ser'.
Numa lógica simples e impensada, você parece suprir o que eu quero: o meu buraco negro insaciável e o seu sempre-novo jeito de vir-a-ser. Então no mais baixo nível água com açúcar eu me vejo com instinto de sentir o teu cheiro encher as minhas mãos, a boca, de você. Mas fica chato terminar assim, de quatro, depois de tanta formalidade. Acho que cabe eu contar uma história:
No tempo em que eu fora pequeno príncipe, de todo aquele amor gratuito e inexplicável - porém real, nem eu mesmo acreditara naquilo: 'meu amor, nós nos encontramos na hora errada, e eu ainda te espero n'algum outro tempo'. Eu não acreditara, mas fora verdade. A verdade de um tempo atrás. Hoje a verdade é outra e muito menos romântica, como você sabe; mas eu confesso que a-do-ra-ria te ter agora, nesse outro tempo: o meu maior prazer seria te mandar ir embora, depois, sem remorso, sem dor, com o sorriso sacana no rosto.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
a roseira e o dente
Mas, ai, eu não quero me perder por aqui, ler alguma coisa sem sentido e deletar tudo e esquecer que eu to precisando escrever não é de hoje. Eu to precisando escrever não é de hoje e eu tenho pensado muito em mim, acho que fica claro que essas duas sentenças são bem complementares. E pra não me perder, melhor, pra me achar e fazer sentido, eu vim escrever sobre mim porque consegui me desvendar um pouquinho através do meu olhar triste sobre uma roseira. Eu me sinto como alguém que puxa um fino fio de uma toalha de mesa grande diante de algum detalhe simples e completo que a vida apresenta num cantinho do quadro que eu pinto todos os dias pelos meus olhos que são meio castanhos, meio verdes, é que depende do dia, da hora, da irritação ocular.
Antes de continuar eu só preciso constatar que queria ser assim verborrágico pessoalmente também, mas o que sobra é um silêncio de alguém incompleto, pronto a todo momento pra ouvir a frase que vai encaixar tudo no lugar, que vai dar sentido pra vida inteira. Daí ele vai ser feliz. Ai, ele sou eu, num conto bonito de livro em que nem tudo é verdade e acontece como descrito.
Mas eu vim aqui pra contar do detalhezinho bonito que eu enxerguei hoje: talvez ela tenha 15 centímetros, galhos secos, e tá decepada, mutilada. Eu não achei triste, pelo contrário, gostei da capacidade de ser real que a roseira feia tem. Eu só entendi que era uma roseira pelos espinhos nos dois galhos, marrom-morte. Tem aquela frase, ‘num deserto de almas, uma reconhece a outra’ e por aí vai, eu acho que me senti assim com a roseira, ela me sugou os olhos e eu só gostava de olhar pra ela. A gente partilhava mesmas coisas. Tem algo, em ambos, que denuncia uma beleza tardia, efêmera, que deixa marca nem sempre agradável. Os espinhos me diziam rosas. O que sobra hoje é seco. Não é triste, é seco. Não é morto, porque ainda sente a chuva.
Chuva que por sinal passou por aqui, daquelas de verão, muito barulho e cenário pra pouca existência do que se teme. Gosto de boas apresentações, creio que valorizam o que se é em essência. Boas ou más apresentações. Gosto de extremos, combatidos automaticamente pela inércia da maioria insensível. Mas eu gosto, me dou bem com as extremidades uma vez que não me mantive no centro, das atenções, dos olhares. Gosto de força, de temperamento, de tempero...
Enquanto chovia eu fui à janela impetuosamente, sem medo de que a chuva molhasse o meu quarto, um cuidado que eu normalmente prezaria. Me inclinei, aspirei com força e mais de uma vez, daí eu senti o cheiro da grama molhada. Isso me deixou bem vivo. O cheiro, as lembranças da grama cortada na escola, a chuva na pele normalmente me deixaria mais sensível, eu olhava a roseira e só conseguia ser como ela, com uma fúria de vida que há tempos eu não via. Naquele momento, nós éramos mais fortes que o resto do mundo.
Sem indagações eu aprendi com a roseira. Ela está seca, e talvez isso dure mais algum tempo, alguns meses, alguns anos. Mas enquanto a chuva existir vai haver vida também, pra ela. Em busca das rosas de outrora, ou do novo que possa surpreender. Em busca: isso é mais definitivo.
Algumas outras vezes eu abria a janela sem dúvidas, sentia o frescor da tempestade passada, até quando decidi manter a janela aberta. Não me preocupo com danos se isso me trouxer mais vida. O cheiro agora mistura a chuva, a grama, e o esgoto ali perto. Eu me lembro que a plenitude, mesmo parecendo a maior grandeza da vida, é por certo um detalhe efêmero. Um dente-de-leão, ao vento. Um daqueles ali, que só percebi depois diante da vulgaridade ao lado da roseira imponente. Ele percebeu, depois de algum tempo, que agora se parece mais com um dente-de-leão: livre – e ciente do que é ser livre. Segue ao vento, sozinho, rápido e vivo, dure o tempo que durar. Até que chega ao chão, segundos depois, ou mais. Quando o fim simboliza o recomeço. Ele agora está só e ao vento, ele agora está pleno.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
verborragia I
Era verdade era tudo verdade. Frases de impacto envolvendo grandezas. Era verdade, eu sinto na persistente existência indesejada de tudo aquilo que sempre diziam que era real enquanto eu não acreditava. Um bloco completo de prós e contras e o jogo começa a ficar um pouquinho mais sério a tal ponto de tudo – eternamente inalcançável por um triz - ou nada. Nada mesmo. Tudo aquilo que sempre dizem. Mesmo que desnecessariamente, lembro a diferença entre sentir em todos os sentidos poros respirações palpitações pensamentos de ‘acho que to tendo um ataque porra eu to escorrendo onde fica a parede mais próxima eu realmente não quero morrer agora estou desenvolvendo jogos de vídeo game de duelos tive que acordar pra parar de visualizar mais vezes a mesma cena que se repetia sistematicamente ouvindo assuntos familiares gerados de uma visão limitada do todo todos os carros tão fazendo um barulho ameaçador quadrados azuis formando um xadrez com coisinhas dentro dos quadrados como frutinhas e eu vejo exatamente como tu e na pior das hipóteses se não voltar ao normal eu me acostumo a ficar assim’ e simplesmente ouvir falar. Agora eu falo com a sobriedade transcendente do que se diz sóbrio, além do limite. Além do limite, o ilimitado, e tudo que se tem como bases padrões costumes crenças razões e sentidos do todo – toda a limitação do limitado - fica ínfimo e se perde diante do infinito que invade os olhos num ímpeto visceral. Não eu não estou fascinado e isso é só o que eu consigo ver a mais. Eu me sinto desesperado e vejo bichos na cortina, como baratas que ninguém mais vê. Eu não quero ver. O jogo do tudo ou nada me assusta e eu odeio estar engasgado com esse gosto doce na boca. Eu me encontro cansado músculos abandonados boca aberta olhar vago e parcial e pequeno eu não consigo mais suportar o gosto doce na minha garganta e se eu não me acostumar com o gosto eu poderia vomitar até me livrar do melhor e o pior que agora é mais uma parte dentro de mim e maior que eu. Alguém desliga o som, isso me incomoda e se não desligarem eu não posso dormir e se for gradual minha atenção à música será gradual a devastação irreversível da minha capacidade auditiva, alguém desliga o som. É gradual a devastação irreversível do meu cérebro. E você, podre e recatado, é gradual a devastação irreversível do seu cérebro e de todos assim como é gradual a devastação irreversível da vida minha sua de tudo que simplesmente tem a ousadia de existir. Eu com a vida em funcionamento desviado noite vivida mesmo quando não se quer mais caminhadas involuntárias e irracionais vômitos amarelos pessoas olhando catarros sabor vômito. Você e os outros com suas respectivas ausências e fugas. reverborragia reverbera verbo rompe jorra. grafia gurgitar o que signfica orto? Será que isso nunca vai passar e se passar será que não vai ser somente a ilusão de ter englobado tudo isso (maior que eu)? O meu rim dói minha boca tá mais seca que o deserto isso só me faz mal e mal pros meus rins eu morro de medo de passar na frente de hospitais. Medo e compaixão. Compaixão por perdão. Perdão por culpa. Culpa por crime. Não quero ser descoberto: Eu sou o único culpado pela devastação irreversível de mim.
Ciente. Ciente do risco e da falta dele, eu concluo que isso é apenas o começo. Ciente que vou esquecer como é sentir autodestruição e querer lembrar se melhor o tudo inalcançável por um triz ou o nada.
Agora eu me sinto pleno.
As formas são por si só.
Acende essa luz de novo. Não vou dizer mas tive pavor de ficar no escuro de olhos abertos e não conseguir enxergar.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
guarda-chuva
Nessas horas eu me lembro de morrer. Boto as luvas de borracha e sem apego como quem examina um cadáver que nunca antes teve nome. Vasculhar o que ainda tem de mim, sem perfeitas condições e não mencionando os órgãos que nesse ano me foram amputados.
Vamos nos abraçar e ser felizes. Você errou a concordância. O desespero de um futuro próximo sem nada nada ninguém nada e tudo vazio e incerto me faz te segurar com força e muitas vezes no dia. Desculpa eu preciso dizer que isso não é afeto. Eu nunca disse que eu não gosto de você. Eu não tocaria no corpo dele do jeito que toco no seu corpo. O nojo me daria ânsias. De vômito. Antes um cadáver. Antes o cadáver do meu amor. Eu me agarro em ti às vezes com mais força que carinho. Eu quero evitar voltar pro escuro e sozinho de todos os dias. A dor na cama esperando pelo sono, até que o sono ainda seja maior que a dor. A morte de todos os dias. O rim que torce e me curva a espinha. O rim que sangra pelo mijo pra me dizer o quanto eu estou morto e não tenho mais chances e as coisas só devem piorar. Não posso mais pensar nisso. Apenas me desculpe.
- O que você construiu esse ano?
- Sabe, esse ano eu tenho que admitir que muitas coisas mudaram. Estou surpreso com meu amadurecimento em demasia, você entende? Ah doutor, eu aprendi muitas coisas, sem dúvidas eu construí muitas coisas. Admito que continuo sendo o mesmo ser amputado, uma cabeça asquerosa, que se movimenta e sangra. Mas esse ano eu adquiri algo quê... algo que me acompanha até hoje. É certo que tudo que como a situação crítica dos meus órgãos, enquanto eu o tiver eu o vejo cada vez mais podre. Mas com os outros restava a perfeição, a imagem que eu tive na minha cabeça, quando os perdia. Acho que prefiro vê-los podres ao meu lado do que perfeitos e longe. Tocá-los com minhas doenças os apodrece. Tudo bem contanto que continuem meus. Doutor eu só queria dizer que durante todo esse ano eu usei apenas um guarda-chuva.
Eu to deixando de te amar. É uma pena ser aos poucos. Você agora tem sido um corpo amputado, que me excita mais que qualquer outra coisa. Você é ridículo e seu amor é ninguém. Eu sinto nojo de me excitar te olhando. Suas camisetas têm as piores frases, você passou a se vestir mal. Você bebe e fica ridículo. Eu odeio sentir que meu amor acaba morto na lata de lixo e com cheiro forte. Eu odeio ser fraco. Eu odeio saber que enquanto eu te amava eu não tinha tanto tesão por você. O meu amor morre antes de um minuto, todos os dias, mais de uma vez por dia. Você não me merece e eu não mereço nada além de mim mesmo. Nada além de morrer.
- Doutor: esse ano eu aprendi como enlouquecer todas as noites e me manter são por conveniência durante os dias. Me sinto bem assim.
domingo, 28 de novembro de 2010
ele precisa viver
Há mais de uma hora acordado. A cama e as coisas continuam da mesma forma, como se ainda dormisse(m). Ele continua da mesma forma, como se nunca tivesse dormido. Porém nessas ocasiões é quando costuma sonhar mais que qualquer um. Andando em linhas retas e treinando diálogos que não vão acontecer, ao fundo o som do tempo que passa nos motores dos carros. Seu prazer dura pouco, e por tantas repetições seria chamado de doente caso não estivesse sozinho. Ele acredita que ser feliz é como sentir aqueles dois segundos de prazer, em tempo ilimitado. Engano. As cortinas e janelas continuam fechadas. Ele está preso nele mesmo e ele mesmo é a junção de fragmentos dos outros. Então ele está sozinho sem querer. Mantém os olhos abertos porque o sol invade impiedoso qualquer fresta. E ele foi ensinado que quando o sol está, seus olhos devem estar atentos, mas não muito. O sol invade impiedoso qualquer fresta: isso o deixa de olhos úmidos, ele se torna um pouco menos morto. Ele sonha um dia ser uma fresta invadida pelo sol. Vai até a janela às vezes, tomando cuidado pra nunca ser visto. Empurra a cortina pra conseguir ver mais de ‘lá de fora’. Olha com brilho nos olhos, é o que o sol causa. Ele se torna um pouco menos morto. Não entendo como ele consegue admirar as cores, as imagens de ‘lá de fora’. Mas ele olha como se admirasse um quadro impenetrável, ao qual ele não está contido. No fundo sabe que a arte impenetrável é ele mesmo e o mundo é só aquilo tudo que nossos olhos nem reparam. Me pergunto como conseguiu passar tantos anos em si mesmo a ponto de acreditar que o contrário poderia ser verdade. Sabe que quando o ‘barulho do tempo nos motores dos carros’ passar, ou ao menos diminuir, vai estar perto do fim. Ele vai esquecer as sutilezas e vai ser uma pessoa normal, assim que destrancar a porta e abrir o trinco enferrujado.