sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
domingo, 25 de novembro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
não me machuque
não me machuque.
não me machuque.
por favor,
não me machuque.
quantas vezes devo ter dito essa frase pra mim mesmo nesses últimos dias?
[mas no fundo eu sei que ele não vai ouvir.]
talvez eu tenha apenas dito isso pra mim mesmo: veja bem, não me machuque. não se machuque
sozinho. machucar-se a dois. aí então vale a dor dos joelhos a final de contas? porque nada se não o final é tão certo.
[mas do chão não passa!]
não passa!
do chão não passa.
dor que não passa.
não passa.
não passa.
não passa.
não esqueça de se lembrar, depois, que depois passa.
não me machuque.
por favor,
não me machuque.
quantas vezes devo ter dito essa frase pra mim mesmo nesses últimos dias?
[mas no fundo eu sei que ele não vai ouvir.]
talvez eu tenha apenas dito isso pra mim mesmo: veja bem, não me machuque. não se machuque
sozinho. machucar-se a dois. aí então vale a dor dos joelhos a final de contas? porque nada se não o final é tão certo.
[mas do chão não passa!]
não passa!
do chão não passa.
dor que não passa.
não passa.
não passa.
não passa.
não esqueça de se lembrar, depois, que depois passa.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
eu me apaixonei por um homem morto
-Eu não posso gozar aqui.
-Ok.
Ele encostou o rosto no meu, o calor da respiração esquentando meus ouvidos. Eu o sentia imensamente maior que eu. Eu não posso gozar aqui: ele sussurrou isso no meu ouvido em tom de segredo, e ao mesmo tempo cuidadoso e acanhado e carinhoso. Nunca choveu tanto numa madrugada só; talvez eu só não tenha me importado porque tinha os seus braços em torno. Nós nos conhecemos às onze horas da noite, ao som da minha melhor música no fone de ouvido, expondo minha fragilidade.
Nós nos conhecemos de olhos fechados. No escuro. Minhas mãos foram meus olhos enquanto apalpavam e me falavam sobre o seu corpo, sobre o seu rosto. Sobre seus pêlos por crescer. Não me lembro do rosto e nunca soube o seu nome. Inventamos um acordo tácito de amor no escuro, de amor sem futuro. De amor sem som que não nossas respirações ofegantes, ou no máximo os trovões e a chuva. Amor sem palavra. À meia noite nos apaixonamos, e tudo em volta dormia.
E tudo seria tão vulgar... E foi tão vulgar, mas não só tão vulgar. Quando pela primeira vez eu encostei minha mão esquerda na sua perna direita, ele se aproximou. Eu quase com medo do possível desrespeito com que ele fosse prosseguir, ou quase desejando isso. Ele colocou a mão direita sobre minha mão esquerda e só acariciou minha mão. Ele ergueu a mão esquerda e acariciou meus cabelos. Ele me disse:
-eu te amo, também.
Quem diria? Quem iria saber? Um homem como ele... Se não fosse a força dos acasos premeditados, eu não seria capaz de saber o que é coragem. Eu não ia saber que o amor tem mais um jeito de se tornar possível. Ao mesmo tempo, o mesmo amor. Amor de língua grande, lábios macios que mordiam meus dedos, cabelos finos e certamente loiros, barba grossa e curta de homem. Pra onde ele iria? Onde ele está?
Quando eu abri meus olhos, nós já nos conhecíamos. Nossos olhos gritavam a mesma coisa: uma ânsia por conhecer, sob a luz precária dos postes que passavam. Nós nos conhecemos em preto e branco, num filme antigo, com imagens em sequência. Ânsia por enxergar mais. Nós gritávamos em silêncio:
-quem é você?
-e como isso é possível?
E trocávamos promessas de amor eterno. Na força das nossas pupilas dilatadas. Às quatro da manhã nós dormimos abraçados. Ele era o meu dono. Ele não queria nada além disso: colocou sua mão direita sobre minha perna direita, eu abracei seu forte braço direito, como se me segurasse da tempestade em uma árvore com raízes firmes. Deitei minha cabeça em seu ombro e nós decidimos dormir, como tudo em volta. Ele dormiu antes, eu acariciava seu corpo e cuidava pra que nada mudasse. Ele dizia:
-eu sou o teu dono.
Às onze horas eu o conheci. À meia noite eu me apaixonei por um homem morto. Às quatro horas da manhã nós decidimos dormir abraçados. Às cinco da manhã eu o sepultei sem palavras, sem ressentimentos. Às luzes se acenderam e nós não nos vimos. Não éramos os mesmos sob a luz branca. Decidimos não nos olhar, decidimos deixar que fosse só uma bela história, que pudesse assim, durar pra sempre. Fui embora pra sempre com seu cheiro nas minhas mãos.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
dia de chuva
amanhã é dia de amanhecer chuva. agora chove incessantemente, não há lugar pra tamanha vasão, e o que é líquido transborda e flui sem rumo, arrasta tudo que não presta, leva também um pouco do que se tinha de bom. não passa nada, é o que acontece. amanhã vai ter uma nuvem abraçando o sol, os meus olhos vão ter que fazer mais esforço pra partir do sono. mas "é preciso", é o que dizem sem saber, é o que dizem porque disseram pra dizer. e se eu perguntasse o porquê? então talvez eu choraria, porque não saberiam me responder. amanhã é dia de chuva. e não adianta o quanto eu tente, no final toda água respinga sobre o meu corpo. e eu deixo. no final, chuva e lágrima são a mesma coisa. no final eu vou seguindo frágil e desapontado, desmanchando mais uma armadura de papel que eu tecia com as folhas secas e manchadas. e quem sabe? e quem que saber? uma hora passa e sobramos eu, e o mundo, velhos novos conhecidos.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
vergonha das mãos
Era uma vez um menino que gostava de olhar pra mão de homens desconhecidos. Ele gostava de olhar os dedos, os tamanhos e as grossuras. Dos homens. Os feios, os apagadinhos, os musculosos. Os que ele mais gostava na verdade era dos homens asquerosos e dos bem vestidos. Não se importava se as mãos eram limpas ou se as unhas eram asseadas: contanto que ele pudesse tirar alguma informação das mãos. Não importavam alianças ou anéis, afinal era só uma brincadeira infantil. Mãos sujas e ásperas diziam sobre homens rústicos e fortes. Mãos tatuadas diziam sobre rebeldes sem causa. Unhas roídas diziam sobre homens inseguros e ansiosos.
Ele preferia manter suas mãos fechadas, ou geralmente usava mangas longas, de modo que suas mãos estavam sempre seguras. Pensava que as mãos diziam muito sobre os homens, em especial. Nunca se importou sobre as mãos femininas. Mão fala. Pessoas imponentes geralmente gesticulam, vide ditadores em discurso. Mas só as mãos masculinas indicam posse, ficam enormes e firmes, fazem qualquer coisa parecer frágil se estiver ao entorno de mãos de homens.
Conhecer a mão de alguém é sinal de intimidade, ele sempre soube disso. A mão direita, que oferecemos pra qualquer desconhecido, é a mesma mão que segura o pau na hora de mijar, que coça as axilas, que massageia os próprios pés. A mão que te conhece melhor que a tua cabeça, certamente te entrega mais que qualquer parte do corpo. Quantas mãos que não as suas você sabe descrever? Ele dizia sorrindo que conhecer as mãos de alguém é sinal de intimidade.
Tinha uma preferência por dedos médios. Os maiores dedos da mão. Gostava especialmente de reparar o tamanho, a cor, o formato da unha e a espessura. Se tinha pelos, e como eram. Gostava também de analisar o tamanho que vai do início do polegar até o fim do indicador. Não se lembra se foi a professora de ciências que falou, talvez algum amiguinho na escola, mas o fato é que tinha ouvido que essa distância, e também o tamanho do dedo médio, eram o tamanho equivalente das genitais. Não importava se não fosse verdade, ele gostava de pensar nisso. Mas logo se distraía, às vezes ria sozinho, ao lembrar que os gestos manuais são sinais pejorativos: um significa 'foda-se' e outro aponta uma arma.
Pensava que uma arma de dedos, um dedo médio em riste, um pau e um homem eram, todos, no fim das contas, sinais pejorativos. E sendo assim, alertavam o perigo. E sendo assim, era melhor manter distância e continuar observando as mãos, imaginando e rindo sozinho. Fim.
sábado, 9 de junho de 2012
sobre voar
hoje eu fui tomar vacina da gripe, aqui em bnu tem várias pessoas doentes de h1n1... daí fui no sétimo andar de um hospital redondo, aberto no meio, assim... daí eu falei pra minha mãe: imagina cair daqui e la embaixo tinha uma mesa de madeira, tão pequeninha. daí minha mãe me disse que uma mulher se matou, depois de sair de uma consulta. ela tinha depressão. eu fiquei fascinado. olhava pra baixo e sentia meus pés e minhas mãos com fisgadas, um desequilíbrio, o corpo pulsando, todo vivo, sem controle assim, com os olhos brilhando. daí um cara do lado, conversando com a namorada dele: -tipo assim, ela deve ter se jogado e depois se arrependido, mas daí era tarde. e eu disse pra minha mãe, precisei falar: é lindo pensar que as únicas pessoas que tem o privilégio de voar de verdade são as suicidas, não acha? ela respondeu que não.
sabe, eu não vejo beleza num suicídio... eu vejo que a pessoa chegou num ponto de lucidez, de sobriedade que parece que chegou no limite da esperança. e é difícil ou impossível viver no mundo cru sem ter esperança. lindo isso, porque me faz acreditar na humanidade. todos que estão vivos só estão porque tem esperanças.
Assinar:
Postagens (Atom)