domingo, 18 de setembro de 2011

no entanto continua vivo


O silêncio era capaz de derreter os seus ossos fracos, que já não faziam questão de permanerecem inteiros. As lágrimas nos olhos distorciam toda a realidade. As luzes dos carros pareciam faíscas de vida, mas estavam longe, como num quadro. Ele lembrava que o tempo passava, ele lembrava que existem tantos outros tão melhores que ele, a ponto de sentir culpa de ser amado por seus pais. Ele não tem nada mais a oferecer. Ele forçava uma válvula de escape enquanto lembrava de tudo que havia perdido e fracassado. Não consegue mais sentir dor. A casa borrada pelas lágrimas nos olhos o afastam da realidade do amanhã. Ele já tem uns tantos anos e está sozinho. Ele não tem nada melhor a dizer. You don’t have to feel guilty. Foi longe demais, o mais próximo da morte que já havia ido. Esqueceu como se ama. Esqueceu como se é triste. Esqueceu como se é feliz. Esqueceu como dói a dor. O jogo já devia ter acabado. No entanto continua vivo. No entanto, não existe nenhuma razão.

domingo, 17 de julho de 2011

Ele existe em algum lugar

Férias nos hospitais da cidade. Eu não quero saber da minha doença, se eu estiver doente. A ferida cresce como um fungo, silenciosa, e eu a escondo, a dor é recorrente, e eu a escondo, os médicos estão chegando e eu a escondo, eu a escondo de todos eu a escondo de minha mãe eu a escondo de mim mesmo em palavras como 'não tem nada a ver'. Ele parecia me odiar sem me conhecer. Ele parecia odiar o mundo sem o conhecer. Porque eu odeio o mundo sem o conhecer. Eu só queria tirar seus óculos pra pisar em cima pra deixar ele de quatro e com a bunda de fora de novo. NA. M de um nome bonito e cabelo raspado e de 90. ainda não combinei nossos signos porque afinal, foda-se. Os médicos estão chegando e eu rio escondendo coisas que não existem. Ele me olhava com a mesma superioridade que eu olhava o mundo e então estávamos nós no mesmo nível. Aquele que diz diz: Nível não é nivêl. Aquele que diz realmente acha que o espanhol é uma língua feia. Os médicos estão chegando e eu rio escondendo coisas que não existem. Eu odeio o mundo sem conhecê-lo. Eu o conheço e eu o amo porque entre tanta gente chata ele parece tão entediado quanto eu. Eu sorrio pra tantas falas belas, construtivas, claras, coerentes enquanto não as ouço. Alguém disse que somos intelectuais e eu nem acreditei, ainda bem que alguém repetiu. Eu não costumo confiar em mim mesmo. Eu dizia que somos todos idiotas enquanto sorria como quem concorda com a bela fala construtiva de alguém. Essa mania de platonizar é a minha forma mais agradável de não viver. Eu vou dizer pra ninguém que ele irá me visitar, ninguém vai ver as fotos dele tentando imaginar como seria possível eu e ele. Ninguém vai morrer de inveja e eu vou me sentir por cima. ninguém vai me cumprimentar com muita falsidade dizendo: vocês formam um casal lindo e eu vou agradecer ninguém e eu vou ser feliz e eu vou estar pronto pra começar a viver. Hoje eu sei que continuo escondendo coisas que não existem. Nós odiamos o mundo e não o conhecemos, nós nos odiamos e não nos conhecemos. Eu não vivo e nós não vivemos juntos. juntos. juntos. nós não vivemos juntos. nós juntos. Os médicos estão chegando e o medo torna-se maior. Não há medo da morte, há medo da dor. da dor em saber que a doença que não existe não existe. saber que nada que não existe não existe. ele não odeia o mundo, ele não é a minha doença e ele não vai me matar. nós não não vivemos juntos. ele vive em algum lugar. pra mim ele não existe. tanto quanto eu. mas os médicos dirão: ele vive em algum lugar. branco espera plástico descartável contaminação número dor ferida pulsa mata congela como se não doesse. fala construtiva de alguém. adia cuida de matar depois. humilha porque cuida de matar depois. Eu não vivo. Ele existe em algum lugar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

sim, é você

Você podia ser a minha nova promessa pra 2011. Roteirista, diretor, ator, o meu 'melhor de você'. A tv falava outra língua enquanto ele pensava no rapaz que tinha no mínimo, admitido sua existência. Fazer comida o tornava um pouco mais vivo. Ele dormiu a tarde toda, ele podia dormir a tarde toda, mas a culpa em não viver o tornava nem vivo nem morto, o tornava sonho. Mas agora era vivo, era vivo pra ele enquanto cozinhava e vivo pro rapaz, enquanto pensou em algo que ele disse. Será que ele disse meu nome? No mínimo mentalmente, será que ele disse meu nome? Enquanto lia, será que me achou interessante? Eu não esperava tanto daquele rosto vazio de criança despreocupada e em outras fotos, rosto de homem que é maior que o mundo. No mesmo mês e separados por um signo. Aquário não lhe caía bem, ele sabia. Na mesma cidade, e separados por um bairro. No mesmo curso e separados por uma universidade, e todas essas coisas. Ele lembrou da vez em que passava frio ao lado de várias pessoas que passavam frio, incapazes de se abraçar. Ele lembrou do atraso enquanto corria pra alcançar o ônibus enquanto os desconhecidos de sempre passavam de carro pelo mesmo itinerário. Ele lembrou que a vida é a concretização das não-concretizações. Ai, ele lembrou agora que deve acordar cedo amanhã. Eu amo esse filme. Eu também gosto de Alanis. Parabéns, você esteve ótimo. Não me pergunte e não questione mas eu só quero te beijar. Oi. Como é o curso aí? Gostou da oficina? Eu também. Eu também. Eu curti isso. Eu não curti isso mas finjo que curti pra que você pense o meu nome mais uma vez. Não desvia o olhar enquanto eu tiver coragem de fixar os meus olhos no teu rosto de presa. Porque eu sei que você vai crescer e me assustar e me amedrontar e me matar um dia, no melhor estilo 'eu gosto de morrer se for olhando pro teu rosto de caçador'. Porque eu sei que você não existe. Acabe comigo.

domingo, 15 de maio de 2011

pensar em voz alta II

a: Voltou a chover aqui. A chuva torna as coisas mais escuras, menos nossas. Acho que choveu a noite toda, alguém ouviu? Pode chover toda chuva que houver mas o fato é que de noite eu não consigo ouvir. Então de manhã eu descubro a chuva nas marcas da chuva, no asfalto carimbado pelos pneus molhados, mostrando rastros que nossos olhos preferem ignorar ou ver de uma outra forma. Ué, choveu ontem à noite?

b: De manhã parece sempre uma nova chance. A água da chuva é desvirginada desfigurada apodrecida assim que encosta algo que faz parte desse mundo. Desvirginada desfigurada apodrecida agora a chuva. Agora a chuva é mais que antes. Seja como for. Os carros tratam de secar as ruas com pressa, sempre com pressa, e pedindo silêncio fazendo barulho. Muita pressa, muito barulho e pouco silêncio. Os ponteiros do meu relógio, uma linha horizontal onde ver os ciclos se repetindo parece muito mais difícil.

c: Mas de manhã parece sempre uma nova chance. Eu ando e vejo a água suja de ontem parada nos bueiros junto com muita sujeira. Eu tô falando sobre 'asfalto e a nova cidade' e 'impostos e governos e consciências' e 'hoje e ontem que ainda tá aqui'. Também tô falando de 'muita vazão pra pouco escape'. As poças são do chão com uma propriedade de mais ninguém. As poças são os espelhos do céu; não, de tudo que se põe a cima. Mas a realidade das poças é diferente diferente da nossa realidade. Em comum: as realidades são sujas, desvirginadas, desfiguradas, apodrecidas. Depois evapora e não se sabe muito bem. Volta? Volta. Sem saber. Volta.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pensar em voz alta I

Eu ando cansado. Quanto mais o tempo passa e menos eu o tenho para exercer a vida, de fato; mais eu tenho percebido que sou uma carcaça que movimenta meus pensamentos, ímpetos e desejos de algo maior. Hoje eu me senti um possível mártir de uma classe. Logo depois eu me senti um nada, diante da beleza torta, da ingenuidade de pensamentos daquele travesti. Me pareceu tão confuso e acreditado de qualquer verdade que o dissessem... Ele morreria por uma causa. Uma cabeça confusa e mil ideias na cabeça. Algumas eu penso que virão a ser ações. E eu me pergunto, por que tanta dor de cabeça, comprimindo tudo que é possível no meu crânio? Algo já me disse desde sempre que o meu grandioso ato tão esperado é nada além de sonho e nada além dele eu admito realizar. Nada. Não, não é nada.

sábado, 23 de abril de 2011

plebeu mal-cheiroso

A gente junto tem cara de desencontro. E engraçado que já passou da época que eu imaginava a gente junto. Mesmo aquela época, a gente junto e havia um abismo entre nós. Vários abismos. Eu nunca tive coragem de pensar em 'nós', a gente junto, pra mim, era 'eu e você'.
Você me disse 'eu fujo de lá e você corre pra lá' e eu só pude achar que isso tinha, digamos, uma força literal; digamos que eu poderia escrever sobre isso com um sorriso sacana no rosto, bem do jeito que eu gosto. Aliás eu adoraria que você deixasse de ser interessante. Porque a tua beleza já me cansou faz tempo (tirando que tuas tatuagens estimulam em mim um fetiche que eu gosto de chamar de obscuro. Naquela época não tinhas - graças a Deus, porque eu iria mais longe, sabe-se lá onde.). Eu já conheci uns trinta e seis caras do teu tipo mais gostosos que você. A beleza em si é previsível e, meu bem, você já perdeu a pose faz tempo.
Mas, sabe? Eu não sei. Eu queria saber. Eu ainda despendo tempo aqui, escrevendo sobre o nosso desencontro. Eu ainda faria esforço pra você dormir lá em casa. Eu voltava 'de lá' mais cedo. Porque o fato de você ser um mistério indecifrável - e que assim seja, meu bem - cria entre nós um abismo. Sempre a um triz ou um abismo de poder conhecer, deveras: conhecer para dominar. A sua beleza é a mesma - tirando suas tatuagens mal feitas - mas você se torna cada dia interessante de outro jeito, do jeito que eu adoraria conhecer. Das suas novas frases e fases, das suas novas músicas e dúvidas, das suas novas drogas e fodas. Sempre novas. Sempre indefinidas. Sempre um 'eterno vir-a-ser'.
Numa lógica simples e impensada, você parece suprir o que eu quero: o meu buraco negro insaciável e o seu sempre-novo jeito de vir-a-ser. Então no mais baixo nível água com açúcar eu me vejo com instinto de sentir o teu cheiro encher as minhas mãos, a boca, de você. Mas fica chato terminar assim, de quatro, depois de tanta formalidade. Acho que cabe eu contar uma história:
No tempo em que eu fora pequeno príncipe, de todo aquele amor gratuito e inexplicável - porém real, nem eu mesmo acreditara naquilo: 'meu amor, nós nos encontramos na hora errada, e eu ainda te espero n'algum outro tempo'. Eu não acreditara, mas fora verdade. A verdade de um tempo atrás. Hoje a verdade é outra e muito menos romântica, como você sabe; mas eu confesso que a-do-ra-ria te ter agora, nesse outro tempo: o meu maior prazer seria te mandar ir embora, depois, sem remorso, sem dor, com o sorriso sacana no rosto.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

a roseira e o dente

Descobri uma roseira aqui atrás da janela do meu quarto, em Blumenau. Engraçado, eu to passando minhas férias aqui e não tinha notado ela, ali, o tempo todo. Eu to pensando demais em mim. Não, isso é só uma constatação, eu não vejo como um erro ou um acerto, porque todo mundo tem argumentos prontos contra os extremos, daqueles que só saem da boca e todo sub-consciente já conhece e já concorda. Se duvidar, a boca do ouvinte do discurso pronto pode até completar um desses quando pela metade. E seria exatamente igual, palavra por palavra.
Mas, ai, eu não quero me perder por aqui, ler alguma coisa sem sentido e deletar tudo e esquecer que eu to precisando escrever não é de hoje. Eu to precisando escrever não é de hoje e eu tenho pensado muito em mim, acho que fica claro que essas duas sentenças são bem complementares. E pra não me perder, melhor, pra me achar e fazer sentido, eu vim escrever sobre mim porque consegui me desvendar um pouquinho através do meu olhar triste sobre uma roseira. Eu me sinto como alguém que puxa um fino fio de uma toalha de mesa grande diante de algum detalhe simples e completo que a vida apresenta num cantinho do quadro que eu pinto todos os dias pelos meus olhos que são meio castanhos, meio verdes, é que depende do dia, da hora, da irritação ocular.
Antes de continuar eu só preciso constatar que queria ser assim verborrágico pessoalmente também, mas o que sobra é um silêncio de alguém incompleto, pronto a todo momento pra ouvir a frase que vai encaixar tudo no lugar, que vai dar sentido pra vida inteira. Daí ele vai ser feliz. Ai, ele sou eu, num conto bonito de livro em que nem tudo é verdade e acontece como descrito.
Mas eu vim aqui pra contar do detalhezinho bonito que eu enxerguei hoje: talvez ela tenha 15 centímetros, galhos secos, e tá decepada, mutilada. Eu não achei triste, pelo contrário, gostei da capacidade de ser real que a roseira feia tem. Eu só entendi que era uma roseira pelos espinhos nos dois galhos, marrom-morte. Tem aquela frase, ‘num deserto de almas, uma reconhece a outra’ e por aí vai, eu acho que me senti assim com a roseira, ela me sugou os olhos e eu só gostava de olhar pra ela. A gente partilhava mesmas coisas. Tem algo, em ambos, que denuncia uma beleza tardia, efêmera, que deixa marca nem sempre agradável. Os espinhos me diziam rosas. O que sobra hoje é seco. Não é triste, é seco. Não é morto, porque ainda sente a chuva.
Chuva que por sinal passou por aqui, daquelas de verão, muito barulho e cenário pra pouca existência do que se teme. Gosto de boas apresentações, creio que valorizam o que se é em essência. Boas ou más apresentações. Gosto de extremos, combatidos automaticamente pela inércia da maioria insensível. Mas eu gosto, me dou bem com as extremidades uma vez que não me mantive no centro, das atenções, dos olhares. Gosto de força, de temperamento, de tempero...
Enquanto chovia eu fui à janela impetuosamente, sem medo de que a chuva molhasse o meu quarto, um cuidado que eu normalmente prezaria. Me inclinei, aspirei com força e mais de uma vez, daí eu senti o cheiro da grama molhada. Isso me deixou bem vivo. O cheiro, as lembranças da grama cortada na escola, a chuva na pele normalmente me deixaria mais sensível, eu olhava a roseira e só conseguia ser como ela, com uma fúria de vida que há tempos eu não via. Naquele momento, nós éramos mais fortes que o resto do mundo.
Sem indagações eu aprendi com a roseira. Ela está seca, e talvez isso dure mais algum tempo, alguns meses, alguns anos. Mas enquanto a chuva existir vai haver vida também, pra ela. Em busca das rosas de outrora, ou do novo que possa surpreender. Em busca: isso é mais definitivo.
Algumas outras vezes eu abria a janela sem dúvidas, sentia o frescor da tempestade passada, até quando decidi manter a janela aberta. Não me preocupo com danos se isso me trouxer mais vida. O cheiro agora mistura a chuva, a grama, e o esgoto ali perto. Eu me lembro que a plenitude, mesmo parecendo a maior grandeza da vida, é por certo um detalhe efêmero. Um dente-de-leão, ao vento. Um daqueles ali, que só percebi depois diante da vulgaridade ao lado da roseira imponente. Ele percebeu, depois de algum tempo, que agora se parece mais com um dente-de-leão: livre – e ciente do que é ser livre. Segue ao vento, sozinho, rápido e vivo, dure o tempo que durar. Até que chega ao chão, segundos depois, ou mais. Quando o fim simboliza o recomeço. Ele agora está só e ao vento, ele agora está pleno.