terça-feira, 22 de junho de 2010

olhar

Por que é tão forte quando teu olhar olha no meu? Será que só eu sinto a força dessa intensidade? Será que só eu explodo completamente por dentro, e toda a minha vida, tudo que eu já tive, toda minha memória, minhas qualidades e minha história, vai tudo pra esse buraco negro que me toma inteiro, tentando conter a minha vontade de correr e te abraçar e nunca mais sair do teu lado! Será que só o meu mundo para completamente? Só na minha cabeça os corrimãos derretem e as escadas me levam pra lugar nenhum, o chão fica macio? Eu queria viver eternamente olhando nos teus olhos, pra ver se assim eu conseguiria entender o que se passa por dentro de ti. O espelho da tua alma, dizem né.
Será que de nós dois, só eu sinto falta de ter os teus olhos me olhando? Deus, não pode ser só de uma parte que essa ligação grandiosa depende e necessita! Eu não poderia construir isso tudo, mesmo o que eu sinto, sozinho! Se a gente se olha eu digo que te amo, eu vejo o mesmo nos teus olhos! Por que esse, o mais verdadeiro dos elos, não é lei pra nós?
É tudo isso que grita na minha cabeça, iluminado pelas luzes amarelas de um poste e esquecido pela penumbra entre um e outro. Eu volto pra casa sozinho, eu vejo tudo mas com um olhar vazio e úmido que mesmo sem poder, que mesmo sem querer de fato vive a procurar teus olhos em qualquer vão frio que são os lugares onde tu não estás.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um passarinho

Esses dias meu pai chegou aqui em casa e apertou a campainha. Eu sabia que ele viria, mas ainda assim fui surpreendido. Como quando eu era criança, quando minha mãe chegava em casa e eu ainda não tinha lavado a louça – apesar da bronca, todos os dias, a louça ficava à espera da campainha. Mas voltando àquele dia, como nos dias anteriores, algo tinha mudado dentro de mim. A minha sensação de tristeza agora tinha se tornado uma amargura, a casca da ferida, aparentemente a cura, mas a dor ainda pulsa por dentro, sem sangue e sem choro. Esse era eu, correndo pra atender a campainha.

Abri a porta e meu pai falava frases que justificavam o fato de estar com uma gaiola na mão e um sorriso besta no rosto, “a casa de não sei quem pegou fogo e ele iria abandonar esse passarinho” e coisas como “agora tu tens um amigo pra cuidar”, aquelas frases que meu pai sempre disse e que eu nunca gostei, sequer acreditava no teor ou dava importância, preferia ignorar mesmo.

Era surreal e ao mesmo tempo muito rápido pra mim, eu não entendia e algumas vezes eu perguntei “por que não soltá-lo?”. A essas horas eu indagava olhando pra gaiola, em cima do balcão. Não quis que ele ficasse pendurado na parede, assim parecia mais preso ainda. Com o tempo, e com alguma dificuldade, eu consegui compreender que ele sempre esteve preso. Hoje, ele não seria capaz de viver a imensidão e a força da realidade. Talvez nem eu seja. Talvez por isso, e por compreender agora tal fato, nos encarávamos, eu e o pássaro. O tempo, que tinha antes desacelerado, agora era uma pausa.

Aqueles olhos inexpressivos, de alguma forma me fitavam até piscar, sem dizer nada que fosse direto, mas óbvio, ele é um passarinho e qualquer coisa que eu pudesse interpretar seria incoerente. Ou não. Eu olhava pra ele e tudo que eu podia sentir era tristeza. Ele pouco se movia, eu então, estático. Um momento de eternidade, enquanto meu pai fazia ou falava algumas coisas que eu não me lembro. E naquela troca, no mínimo uma troca de olhares eu me doava além do compreensível, todo o meu pesar expelia lágrimas, que meu pai nem percebeu, em seu ritmo habitual. Estranheza. Eu e um pássaro, tão distantes e ao mesmo tempo, num fluxo e numa entrega pura e sensível. Mas que besteira.

Isso foi forte demais pra mim, e algum tempo eu fiquei sem pensar. Alguns dias, e eu preferia ignorar aquela presença. No fundo, é medo, do que eu ainda não tive coragem de tornar fluxo de consciência. Até agora não tive. Como é triste a existência que está tão distante da plenitude. Que jamais pode tê-la. Que no máximo ouve e vê o que tem depois da janela como um quadro inexplicável. Conhece mas não pode fazer parte. O pássaro? Também ele, mas eu me referia a mim agora.

Ai, hoje eu ouvi que a vida não é justa. Eu disse: e quem foi que falou que era pra ser? A falta de sentido da totalidade me assusta. A grandeza da totalidade me assusta. Prefiro calar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

incompleto

saudades... você não sabe o quanto eu tenho sentido! em casa, nos meus itinerários, eu penso você e meu rosto, meu corpo, meu caminhar transbordam a amargura de não poder te ter.
viver tem sido lutar pra sair da tua sombra. você cresceu, ficou gigante, tapou o resto do mundo. eu te dou as costas pra tentar olhar além, mas a tua sombra escureceu tudo o que eu olho, tirou o brilho dos meus sonhos, dos meus olhos.
me ama, ou me deixa de vez. de fato eu fico aqui, paralisado diante da tua presença. diante dos teus abraços de mentira, os de verdade, diante das tuas declarações de saudades.
saudades... não posso dizer o mesmo, é como se uma parte minha fosse feita de ti e então eu te tenho sempre aqui, de alguma forma. eu só queria te ter inteiro. eu só queria te esquecer de vez.
eu não sou mais como antes? eu não mostro mais que te amo? foi você que escolheu desviar o curso do meu amor gratuito que cai no chão e respinga pra todo lado agora.
é uma questão de tempo até que o coração cure e pare de jorrar esse amor torto, incompleto, por ti...
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sábado, 1 de maio de 2010

sobre o vento

E quando tu sentires o frio na pele não te assuste!
De onde vem esse vento que me aguça o tatear dos braços e sossega numa dança a minha nuca? Na janela eu vibro em ressonância com as folhas das árvores, inteiro, envolvido por esse vento. Mas de onde vem? Por que não posso vê-lo? É quase cruel ser acalentado por um desconhecido, ser abraçado pelo invisível.
O barulho dos carros, a casa suja, a comida fria, o tempo desperdiçado. O sol, o céu e o vento existindo em suas plenitudes, avivando as cores dos prédios, das árvores, e seus movimentos. Mas o que importava agora era sentir o vento, na janela, como se à espera de algo, enquanto lágrimas e células mortas eram carregadas pelo vento, com os anseios que, ao passar do tempo, diminuem.
Ele ficou na janela por alguns minutos, observando o mundo como uma engrenagem, um formigueiro num aquário. Os pensamentos giravam numa velocidade incontrolável, já não faziam sentido, o mundo tinha se engrandecido e compreender a totalidade era demasiado difícil e amedrontador. Por ser racional demais, buscava definir aquela, a sua situação estranha. Pensou sentir falta. Do homem que não era seu, ou talvez de algo que estava por vir, algo desconhecido. Mas já havia dito: como é difícil ser acalentado por um desconhecido, ser abraçado pelo invisível.!
Ele ficou lá. Ele ficou lá eternamente, um quadro na memória, simples e complexo. Depois, a vida ativou a engrenagem e o mundo voltou a girar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

aprendi

Olha: depois de três anos convivendo num mesmo corpo, o meu, que era habitado simultaneamente por um sentimento dominador e obsessivo... acho que por mais que os erros tenham se repetido um pouco ainda hoje, eu ainda posso falar que aprendi alguma coisa. Durante três anos eu quis renegar, eu quis me entregar, eu quis morrer, e no fim das contas, quando o sábado terminava e tudo aquilo acontecia de novo, quando eu não fazia a menor ideia de onde você poderia estar, quando eu ouvia em gritos todas as possibilidades de maus acontecimentos e não conseguia dormir... eu aprendi. Eu aprendi, acima de tudo que qualquer situação é aceitável. Mesmo no escuro, os nossos olhos podem se adaptar, nossas mãos podem tatear... é uma questão de tempo, até que o vulcão vire pedra, uma parte, uma marca, uma cicatriz. Hoje é isso, você foi a minha maior cicatriz, o motivo de uns textos.
Hoje eu sei que o sentimento dentro de mim é outro, eu sou outro também. A maneira que ele me acorda, num sussurro magoado, não é o grito assustador de outrora. Percebi que a minha sensibilidade continua bonita quando eu amo, e percebi quando eu quis correr atrás da lua, brilhante, gorda! Mas às vezes dói, e eu não sei se vale a pena passar sem amor, ou amar sem resposta. Mas hoje isso não é uma escolha.
Eu te amo, mas eu faço meus dias passarem. Eu dou vida aos outros na minha vida, eu sorrio com o sorriso dos meus. Eu acho que eu to em sintonia, talvez. Hoje eu aprendi a te amar, por te amar. Hoje eu aprendi a te ver, só com um olhar protetor, pra que nada te faça mal. E quando eu te olhar, não repreenda; eu só to te protegendo com o meu olhar bobo, de quem ama. Não dói tanto saber que tu não me amas, eu aprendi a conviver com isso, durante três anos... Hoje o mundo é maior e enquanto eu te amo o tempo passa, e a mudança vem com o vento que sopra frio, hoje, na janela.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

flor

Hoje eu acordei com saudade do que eu não pude ter por inteiro. Os objetos mal iluminados de minha casa completam o espaço com suas sombras cinza. O dia hoje é cinza. Cinza é o resto sem utilidade do que um dia foi vida, morbidez. Hoje, eu queimo mais uma pétala da nossa flor: a flor que é bonita por exalar vida, que não é delicada nem tampouco bela por ser bela. A flor que, concordemos, não nos convém.
Ontem, enquanto esperei pelo meu sono, não pude conter a fluidez dos meus pensamentos rápidos, que fogem do controle. Nos meus olhos amargos eu senti ou supus os sentimentos. Imaginei suas falas, eu pude ver suas ações e repetir suas frases. Pude nos imaginar juntos e lembrar nossos dias sinceros. Pude imaginar você com outro, morrendo de amores, tentando afogar nossa flor. Me sinto como num pecado quando imagino você e ele. Eu sinto prazer quando penso, e eu me culpo mais. Será que eu gosto mesmo da dor? E eu despertei desse tormento por um momento de vida. Às vezes dormia.
Você não serve pra mim. Nós somos tão opostos... Você me faz mal. Você destrói o meu humor. Vou fazer questão de te falar de todos os meus méritos e me por acima de você. Vou te olhar com indiferença quando você disser coisas relevantes. Vou falar frases curtas que possam te fazer mal, mas não vou repeti-las quando você pedir. Eu sei o que você faz e sei é provocação, ao mesmo tempo em que sei que você ama outro e que de fato eu não tenho importância nenhuma. Saber disso me torna um idiota.
Eu deveria isso... Eu poderia aquilo... Eu conseguiria fazer tal coisa... E de fato eu estou aqui, de joelhos, perdendo tempo de coisas necessárias e que eu já nem as quero mais. Foi você. Eu perdi o interesse e foi você! Eu te amo e a culpa foi sua. E agora? E agora?

sábado, 10 de abril de 2010

o corte

um corte sem a intenção, uma lembrança tua e o respirar avivou-se até sangrar a epiderme. é uma marca física da tua eternidade, pra que nem mesmo diante do espelho eu esqueça de quanto meus poros te respiram; e agora é você dentro de mim ou o contrário, tu me és e eu te sou.