segunda-feira, 28 de agosto de 2023

sujas pelo excesso de uso

Toca o interfone: pode subir, obrigado. Eu moro no terceiro andar e leva alguns minutos entre o interfone e a chegada. Eu nunca sei bem o que fazer com esse tempo.  Eu fico parado atrás da porta até quando me dou conta que isso soa estranho: quem espera a pessoa como se não tivesse fazendo nada? E eu tava, eu tava mesmo esperando. Eu ando um pouco e penso que talvez seja melhor esperar na porta, não tem nada que se faça em tão pouco tempo. Aí eu ouço. O elevador abrindo, os passos no corredor e, por mais que ele nunca tivesse vindo aqui, ele sabia exatamente o caminho. Ou será que ele já veio? A campainha. Eu calculo um tempo, como se estivesse ocupado e não parado atrás da porta. E eu abro. Ele sabia o meu nome, mas ele me disse o nome dele? A gente apertou a mão um do outro? Não lembro. Ele usava um boné e prendia uma parte do cabelo que mesmo escondido eu diria que é cacheado, talvez. Mas isso eu só descobri quando o vi de costas. Até então ele até parecia careca. Alguns homens excêntricos quase passam batidos. Não fosse o tempo que eu tive de olhar pra esse. Boné e galocha. É isso, frio, chuva. Mas o que mais me interessou foram as mãos. Elas não eram nem grandes, nem pequenas. Eram sujas. Muito sujas. Será que ele não lava as mãos? Elas devem ser ásperas. Será que ele me tocou com as as mãos ásperas ou eu tô inventando isso só porque elas são sujas? Ele me fala algumas coisas e eu respondo. Já não lembro mais. Às vezes fingindo interesse, mas às vezes interessado. E volto pras mãos quando me distraio. Como é permitido que uma pessoa entre na casa da outra com aquelas mãos sujas? Talvez eu devesse falar sobre isso. Isso é tão errado nos tempos de hoje, externalizar um incômodo diante de uma inconformidade estética. Eu afasto e censuro esses pensamentos, afinal, sou uma pessoa razoável e razoavelmente respeitosa e atenta à situação precária das pessoas e suas condições de trabalho. Mas, naquela situação, era só isso que era: uma inconformidade estética pros meus olhos. Eu mudei muito pouco, no fim das contas. Ele era inteiro sujo? As mãos eram, com certeza, mais sujas que o resto. Uma aliança dourada se destacava. Ela não era suja. Brilhava. Como será que aquele outro corpo, virtual e agora imaginado, podia se deixar ser tocado por aquelas mãos ásperas e sujas? Não tinha mais nada diante de mim: nem galocha, nem boné, nem rosto, nome ou cabelo preso. Só um par gigante de mãos sujas. Tinha algo de doce naquelas mãos gigantes e grossas. Me afetuei, não a ponto de tocá-las e nem elas queriam meu toque. Elas fizeram o que tinha que fazer. Foi embora e eu não lamento. Agora sinto nojo e falta das mãos sujas. Algumas coisas não são de fácil digestão e por isso duram mais.

sábado, 28 de janeiro de 2017

não gosto de pessoas muito seguras, ou muito categóricas. questionar uma certeza pessoal é um sinal de humildade. e logo aqui, logo agora, em que tudo se apresenta manipulado e/ou manipulável: ser convicto me parece de uma ingenuidade...

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Eu te olhei e te vi. Não vi o homem que eu amava. Mas eu te vi. Talvez eu tenha visto nos teus olhos marrons e no espaço entre os teus dentes, talvez agora eu tenha visto o homem que tu foste sempre. Eu te vi como nunca, talvez muito dentro da tua alma, talvez tão na superfície que esse homem que eu vi, e só esse homem que eu vi, pode ser uma versão eterna de ti.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

carta de amor a PR

Ah, que lindas tuas palavras. Cheguei a me apaixonar um pouquinho, haha.

Gosto tanto quando eu te encontro de peito-aberto, num e-mail ou nos olhos. Fico maravilhado com a tua capacidade de ser dual: entre a simplicidade de uma criança e a complexidade de alguém que entendeu o mundo e tá voltando pra me contar.

Me parece que tudo é sempre resultado do trânsito entre dois extremos opostos (já tão banal dialética que quase perde o sentido). Em geral, quando eu entro nesse estado de devaneio, sozinho ou com alguém, pensar nisso é um dos remédios que conseguem aquietar a minha ânsia. O outro chama tempo. Mas como não se angustiar sabendo que o resultado é trânsito? Trânsito em si implica em não ser definido, definitivo, e sim efêmero... Como se cura uma febre com o remédio invisível chamado tempo? Como se cura uma febre com trânsito entre paradoxos, tentando ao mesmo tempo aumentar e diminuir a temperatura do corpo? E ainda assim, não se fica no mesmo lugar!? Acho que a solução é aceitar a febre, sofrer a febre, padecer da febre.

Imagens são tudo no início [...] mas os sonhos solidificam, viram forma e desilusão. Heiner Müller me faz pensar que essa deve ser mesmo a tensão de viver. Estar pelo sonho, estar pela sua concretude e sofrer pela sua eterna incapacidade de ser real. E aí sonhar de novo...

Que lindo é esse nosso dom de falar e ser entendido.
Tô amando umas palavras nesses dias: coagular, padecer, sofrer, febre, ânsia, água-viva. Poderia escrever sobre elas e tentar entender o porquê desse brilho dos olhos com cada uma delas, mas não.

Será que a nossa conversa fala a mesma língua? Será que o meu português claro é o seu? A gente nunca vai saber [!]. Espero que de alguma maneira as nossas palavras criem vínculos. Em mim, as tuas têm florescido, com pesar ou não. Quero te ver pessoalmente pra sentir que tudo que a gente escreveu até aqui é fugaz demais, incompleto demais pra dar conta do encontro, de qualquer encontro, da vida em andamento. Porque, me parece, a vida, essa vida, é uma surda-muda! Haha.

Beijo,

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

quebra cabeça de mil peças de Romero Britto ou leitura geométrica do desencontro

- Oi.                                                                 Tudo bem?
- Oi, Matheus.                                           Acho que eu não tinha te visto...
- Tô apostando nisso.
- Oi?
- Oi, Marco...                            Tudo bem?
- Tudo normal.                               Chegou quando?
- Sim, cheguei hoje de manhã.
- Massa...
- E você?
- Eu? Eu o quê?
- Vamo ali fora?                                          Quero te ver.
- Acho que hoje não.                       Tô de mau humor. Pretendo ficar no sofá fazendo bolha de cuspe.
- Que ruim, hein.        Nossa.                      Fica bem, aí.
- Ai, desculpa.                         E, obrigado.
- Capaz.                  Queria te ver, já que começo a trabalhar e não tenho mais tempo nenhum.
-                                                                                                                Ficas até quando?
- Não sei...
- Ah...

[e eles nunca mais se falaram]

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

gestos afetados pra dar conta do silêncio

Qual foi mesmo a palavra que você usou pra dizer aquela frase bonita? Já tem uns dias que eu me pego tentando lembrar. De tanto tentar, acabei esquecendo o resto da frase. Só não me esqueço do sentido que fazia, se é que fazia algum sentido. Antes de te conhecer, eu consegui juntar duas coisas um tanto atípicas pra mim: fome de mundo e nenhuma expectativa. Como alguém que corre na direção de um soco, eu andava pela casa com uma inquietude e uma cerveja na mão, trovoada anunciada pela ventania e o barulho dos trovões, metáfora batida num verão como esse de falsos anúncios de fim do mundo que se repetem todos os dias, sem exceção. E mesmo assim, todos os dias, aparece aquele medo, que eu também chamo de vontade de que o mundo acabe, talvez isso pudesse ser uma aventura, algo pra viver e morrer por. Eram os tempos de festa, inércia e inferno astral, e eu, bravio, acompanhado de velhos conhecidos e estranhos num apartamento apertado. Durou pouco. Só até reparar que você tinha reparado, até prestar atenção no seu –oi, tudo bem?. E aí esse teu olhar. Esse teu olhar. Eu era uma presa, fácil, na savana sem nem sinal de outra presa; e mesmo que eu corresse quilômetros, e mesmo que eu lutasse, e mesmo quê, de uma tragédia, seja ela grega, africana ou brasileira, não se muda o fim. E o pior: eu era tua presa e não tinha a menor vontade de me afastar desse teu tom vulgar e teu olhar raro. Agora, sendo cafona, eu sinto que a vida ganha um peso quando eu penso que cada pessoa que eu conheço, randomicamente ou não, existiu pra mim por alguma razão, aquela coisa de encontrar um sentido cósmico. Ainda mais os que eu conheço randomicamente. Ainda mais quando parece fazer todo sentido. Ainda mais quando estuda arte e gosta de teoria. Ainda mais quando me atrai pra caralho. Eu, o ser mais arredio dos arredios, agora transformado num veado de patas trêmulas, apaixonado secretamente pela possibilidade de morrer. O assassino: um leão de aspecto sujo, vaidoso e selvagem de quase um metro e noventa e enfeitado com um piercing no nariz. Você foi o meu presente de natal, me fez entender dentro do teu olho que bravio e arredio não era bem o que eu li no dicionário e esperava ser. Era outra coisa. E eu não podia imaginar nenhuma maneira de te laçar, nenhuma corda tão forte, cabo de aço, que nos mantivesse juntos sem machucar as minhas mãos ou o teu pescoço, embora isso não me impedisse de tentar incessantemente, culpa da minha essência romântica de imaginar que o leão só ataca porque tem um espinho na pata. Teus pelos, os meus em formato de ave. Nossa juba em baixa definição. Uma luta rápida e intensa. Teus rugidos de leão mau e eu completamente pacificado. Ao som nostálgico de los hermanos. E bruscamente interrompido. Durou pouco, e agora isso. Duas fotos tuas salvas nos meus arquivos: não se assusta, não é pessoal, acho minha obsessão um charme sacana. Eu espero tua volta pra me mostrar de novo as mãos, adoraria conseguir encostar nelas. Enquanto isso, sigo admirando as marcas que ficaram espalhadas por esse meu corpo. Talvez eu lembre a tua palavra que falta no mosaico estranho daquela frase de efeito. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

tem alguma coisa de bonito na tua cidade. alguma coisa entre a crueza do mundo e a depredação das coisas. entre o vulgar e o raro. pois deve ser isso do céu parecer mais perto do chão.

sábado, 9 de agosto de 2014

3. a gente só sabe o que procura quando de fato encontra.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ordinária tragédia

1. a gente tava junto pra atravessar, a rua, no caso. aí veio um ônibus e não parou, eu parei, te vi correr pela faixa de pedestre, atravessou sozinho. resultado: você passou, o ônibus passou, eu fiquei parado pra sempre e nunca mais te vi. fim

2. aceitar a condição trágica, irremediável de ser somente aquilo que se pode ser.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

1. Passo um tempo com a tábua de passar

2. Quando não existe mais nenhuma estrada marcada no chão, qualquer direção pode se tornar um caminho novo.
 
3. Será que a morte é o único jeito de garantir a eternidade?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

um pouco certo do nada

Agora me enche o peito um ar da tua boca/
e a minha boca solta um som de vai-e-vem de mar/
transborda os olhos com água salgada de lá/
por Deus e do teu hálito eu viveria a respirar/
e então morreria/

Tu és um poço daquilo que eu não sei/
pra conhecer se há de mergulhar/
no escuro do olho e no fundo do céu da boca/
despido de tudo que eu posso contar/
na surpresa da não espera que se faz saber/
junto pérola e migalha tentado te ver/

um pouco certo do nada/
por vezes duvido do tudo/
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terça-feira, 29 de abril de 2014

no agora do aqui
olhei no espelho
não me vi

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

essa noite, teu beijo azedou na minha boca

domingo, 25 de novembro de 2012

a gente junto parece noite de ano novo

domingo, 7 de outubro de 2012

não me machuque

não me machuque.
                                não me machuque.

por favor,
                                                                                          não me machuque.

quantas vezes devo ter dito essa frase pra mim mesmo nesses últimos dias?
                                                  [mas no fundo eu sei que ele não vai ouvir.]
                  talvez eu tenha apenas dito isso pra mim mesmo: veja bem, não me machuque. não se machuque
sozinho. machucar-se a dois. aí então vale a dor dos joelhos a final de contas? porque nada se não o final é tão certo.

[mas do chão não passa!]

não passa!

                                              do chão não passa.
                                                       dor que não passa.
não passa.
não passa.
não passa.

         não esqueça de se lembrar, depois, que depois passa.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

eu me apaixonei por um homem morto


-Eu não posso gozar aqui. 
-Ok.
Ele encostou o rosto no meu, o calor da respiração esquentando meus ouvidos. Eu o sentia imensamente maior que eu. Eu não posso gozar aqui: ele sussurrou isso no meu ouvido em tom de segredo, e ao mesmo tempo cuidadoso e acanhado e carinhoso. Nunca choveu tanto numa madrugada só; talvez eu só não tenha me importado porque tinha os seus braços em torno. Nós nos conhecemos às onze horas da noite, ao som da minha melhor música no fone de ouvido, expondo minha fragilidade.
Nós nos conhecemos de olhos fechados. No escuro. Minhas mãos foram meus olhos enquanto apalpavam e me falavam sobre o seu corpo, sobre o seu rosto. Sobre seus pêlos por crescer. Não me lembro do rosto e nunca soube o seu nome. Inventamos um acordo tácito de amor no escuro, de amor sem futuro. De amor sem som que não nossas respirações ofegantes, ou no máximo os trovões e a chuva. Amor sem palavra. À meia noite nos apaixonamos, e tudo em volta dormia.
E tudo seria tão vulgar... E foi tão vulgar, mas não só tão vulgar. Quando pela primeira vez eu encostei minha mão esquerda na sua perna direita, ele se aproximou. Eu quase com medo do possível desrespeito com que ele fosse prosseguir, ou quase desejando isso. Ele colocou a mão direita sobre minha mão esquerda e só acariciou minha mão. Ele ergueu a mão esquerda e acariciou meus cabelos. Ele me disse:
-eu te amo, também.
Quem diria? Quem iria saber? Um homem como ele... Se não fosse a força dos acasos premeditados, eu não seria capaz de saber o que é coragem. Eu não ia saber que o amor tem mais um jeito de se tornar possível. Ao mesmo tempo, o mesmo amor. Amor de língua grande, lábios macios que mordiam meus dedos, cabelos finos e certamente loiros, barba grossa e curta de homem. Pra onde ele iria? Onde ele está?
Quando eu abri meus olhos, nós já nos conhecíamos. Nossos olhos gritavam a mesma coisa: uma ânsia por conhecer, sob a luz precária dos postes que passavam. Nós nos conhecemos em preto e branco, num filme antigo, com imagens em sequência. Ânsia por enxergar mais. Nós gritávamos em silêncio: 
-quem é você? 
-e como isso é possível?
E trocávamos promessas de amor eterno. Na força das nossas pupilas dilatadas. Às quatro da manhã nós dormimos abraçados. Ele era o meu dono. Ele não queria nada além disso: colocou sua mão direita sobre minha perna direita, eu abracei seu forte braço direito, como se me segurasse da tempestade em uma árvore com raízes firmes. Deitei minha cabeça em seu ombro e nós decidimos dormir, como tudo em volta. Ele dormiu antes, eu acariciava seu corpo e cuidava pra que nada mudasse. Ele dizia:
-eu sou o teu dono.
Às onze horas eu o conheci. À meia noite eu me apaixonei por um homem morto. Às quatro horas da manhã nós decidimos dormir abraçados. Às cinco da manhã eu o sepultei sem palavras, sem ressentimentos. Às luzes se acenderam e nós não nos vimos. Não éramos os mesmos sob a luz branca. Decidimos não nos olhar, decidimos deixar que fosse só uma bela história, que pudesse assim, durar pra sempre. Fui embora pra sempre com seu cheiro nas minhas mãos. 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

dia de chuva

amanhã é dia de amanhecer chuva. agora chove incessantemente, não há lugar pra tamanha vasão, e o que é líquido transborda e flui sem rumo, arrasta tudo que não presta, leva também um pouco do que se tinha de bom. não passa nada, é o que acontece. amanhã vai ter uma nuvem abraçando o sol, os meus olhos vão ter que fazer mais esforço pra partir do sono. mas "é preciso", é o que dizem sem saber, é o que dizem porque disseram pra dizer. e se eu perguntasse o porquê? então talvez eu choraria, porque não saberiam me responder. amanhã é dia de chuva. e não adianta o quanto eu tente, no final toda água respinga sobre o meu corpo. e eu deixo. no final, chuva e lágrima são a mesma coisa. no final eu vou seguindo frágil e desapontado, desmanchando mais uma armadura de papel que eu tecia com as folhas secas e manchadas. e quem sabe? e quem que saber? uma hora passa e sobramos eu, e o mundo, velhos novos conhecidos.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

vergonha das mãos


Era uma vez um menino que gostava de olhar pra mão de homens desconhecidos. Ele gostava de olhar os dedos, os tamanhos e as grossuras. Dos homens. Os feios, os apagadinhos, os musculosos. Os que ele mais gostava na verdade era dos homens asquerosos e dos bem vestidos. Não se importava se as mãos eram limpas ou se as unhas eram asseadas: contanto que ele pudesse tirar alguma informação das mãos. Não importavam alianças ou anéis, afinal era só uma brincadeira infantil. Mãos sujas e ásperas diziam sobre homens rústicos e fortes. Mãos tatuadas diziam sobre rebeldes sem causa. Unhas roídas diziam sobre homens inseguros e ansiosos.
Ele preferia manter suas mãos fechadas, ou geralmente usava mangas longas, de modo que suas mãos estavam sempre seguras. Pensava que as mãos diziam muito sobre os homens, em especial. Nunca se importou sobre as mãos femininas. Mão fala. Pessoas imponentes geralmente gesticulam, vide ditadores em discurso. Mas só as mãos masculinas indicam posse, ficam enormes e firmes, fazem qualquer coisa parecer frágil se estiver ao entorno de mãos de homens.
Conhecer a mão de alguém é sinal de intimidade, ele sempre soube disso. A mão direita, que oferecemos pra qualquer desconhecido, é a mesma mão que segura o pau na hora de mijar, que coça as axilas, que massageia os próprios pés. A mão que te conhece melhor que a tua cabeça, certamente te entrega mais que qualquer parte do corpo. Quantas mãos que não as suas você sabe descrever? Ele dizia sorrindo que conhecer as mãos de alguém é sinal de intimidade. 
Tinha uma preferência por dedos médios. Os maiores dedos da mão. Gostava especialmente de reparar o tamanho, a cor, o formato da unha e a espessura. Se tinha pelos, e como eram. Gostava também de analisar o tamanho que vai do início do polegar até o fim do indicador. Não se lembra se foi a professora de ciências que falou, talvez algum amiguinho na escola, mas o fato é que tinha ouvido que essa distância, e também o tamanho do dedo médio, eram o tamanho equivalente das genitais. Não importava se não fosse verdade, ele gostava de pensar nisso. Mas logo se distraía, às vezes ria sozinho, ao lembrar que os gestos manuais são sinais pejorativos: um significa 'foda-se' e outro aponta uma arma.
Pensava que uma arma de dedos, um dedo médio em riste, um pau e um homem eram, todos, no fim das contas, sinais pejorativos. E sendo assim, alertavam o perigo. E sendo assim, era melhor manter distância e continuar observando as mãos, imaginando e rindo sozinho. Fim.

sábado, 9 de junho de 2012

sobre voar


hoje eu fui tomar vacina da gripe, aqui em bnu tem várias pessoas doentes de h1n1... daí fui no sétimo andar de um hospital redondo, aberto no meio, assim... daí eu falei pra minha mãe: imagina cair daqui e la embaixo tinha uma mesa de madeira, tão pequeninha. daí minha mãe me disse que uma mulher se matou, depois de sair de uma consulta. ela tinha depressão. eu fiquei fascinado. olhava pra baixo e sentia meus pés e minhas mãos com fisgadas, um desequilíbrio, o corpo pulsando, todo vivo, sem controle assim, com os olhos brilhando. daí um cara do lado, conversando com a namorada dele: -tipo assim, ela deve ter se jogado e depois se arrependido, mas daí era tarde. e eu disse pra minha mãe, precisei falar: é lindo pensar que as únicas pessoas que tem o privilégio de voar de verdade são as suicidas, não acha? ela respondeu que não.
sabe, eu não vejo beleza num suicídio... eu vejo que a pessoa chegou num ponto de lucidez, de sobriedade que parece que chegou no limite da esperança. e é difícil ou impossível viver no mundo cru sem ter esperança. lindo isso, porque me faz acreditar na humanidade. todos que estão vivos só estão porque tem esperanças.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

esta é uma carta de despedida

Escuta. Escuta aqui. Eu preciso falar. Eu to precisando escrever. Tem muita coisa tua que ainda não desceu na minha garganta, ainda não sei digerir, e, de verdade, eu não quero. Eu quero vomitar isso no papel, não é de hoje. Que aí eu aproveito e tiro tudo que ainda tem de teu por dentro de mim. Eu queria começar por ontem. Só consigo pensar em amargo. Eu não quero ser teu amigo! Bota isso no teu cérebro juvenil. Eu realmente não quero ser teu amigo. Eu nunca quis, e chega de fazer o bonzinho, dessa vez eu vou pensar em mim e no que é melhor pra mim. Eu fiquei ali, que nem um idiota, chorando e passando aspirador, que aí eu podia chorar de soluçar, que aí ninguém ia me ouvir. Era igual aqueles filmes espanhóis, mulheres limpando a casa enquanto choram. Na verdade eu nunca vi isso num filme espanhol, mas era bonito demais, real demais, como num filme, e se fosse num filme, seria um espanhol.
Daí eu decidi sair de casa. Foda-se você, foda-se o que fosse acontecer, foda-se o tamanho da dor que eu fosse enfrentar. Que fosse de uma vez, e embora eu saiba e acredite veementemente naquela música que diz que tristeza não tem fim, pelo menos, desse dia em diante eu ia poder dizer: não chegou nem perto do amargo no meu peito naquela noite. Mas, acredite, o que eu senti em te ver, em ser ignorado, em te ver com outro homem, em ver a tua cara aparentemente dócil olhando pra mim e desviando o olhar, e pior, em ver esse teu rosto sem culpa diante tudo isso... o que eu senti foi bem menos do que eu pensei, não foi nem físico, provavelmente pela quantidade de blue lagoon que eu já tinha tomado. Nenhum calafrio, nenhum tremor, nada. Por essas e outras que meu lado racional decidiu nem te incluir na lista de pessoas que eu já amei.
Então é melhor baixar a bola, porque essa falsa modéstia aí não convence mais, nem essa autopiedade. Sei lá, só seria tão mais bonito se tu fosse sincero, se tu tivesse sido sincero, desde o começo. Eu não teria pensado nada disso de ti, ou teria omitido a maior parte por apreciar tuas atitudes sinceras. Talvez eu sofresse bem mais assim, mas talvez valesse mais a pena, talvez fosse menos vergonhoso pra ambas as partes, talvez a história que restasse no final fosse mais bonita e eu tivesse mais vontade de contar, depois de tudo.
Sei lá, sabe, para de aparecer na minha lista de contatos do chat no facebook. Dá um jeito, some. Volta no tempo e dessa vez quem sabe eu fosse menos imbecil por ter me permitido pensar que isso podia ser mais que uma cilada. Vaza, e me deixa com o meu velho vazio de sempre, que não se contradiz porque não diz nada, nunca.
Eu detesto ser agressivo, me sinto mal, mesmo. Detesto ficar de climão com alguém, e pensando nisso como uma carta de despedida... eu preciso te agradecer. Certo e errado é só uma questão de ponto de vista, e o que eu escrevo é sempre a vista de um ponto. De onde eu to. Talvez num todo eu esteja fazendo tempestade em copo d’água. Se visto de longe, mesmo, os humanos são só formiguinhas egocêntricas, e eu gosto de pensar assim pra me por no devido lugar.
Obrigado pelos dias em que eu não passei em branco, seja por estar te ouvindo ou por te contar minhas coisas, sejam histórias de vida ou o quanto eu tive sono naquele dia. Obrigado por me fazer pensar mais, por me fazer querer ser mais interessante, por me fazer querer estar bonito, por me deixar mais sensível, por me fazer entender as letras de música que antes não faziam sentido, por ter me dado um motivo pra viver um pouco mais feliz. Muito obrigado, mesmo que nada disso tenha sido consciente. Eu agradeço demais pelos textos que tu me inspirou a escrever, fazia tempo que não escrevia com tanta frequência. De fato são eles os frutos entre eu e tu. Valeu pela dica de filme que eu achei ruim, mas me apropriei porque fez parte da minha vida. E o mesmo contigo: por esse tempo, muito pequeno, tu fez parte da minha vida e então eu já não sou mais como antes. Nem tu. E isso é invariável. Virou fato.
Agora eu pego os apelidos que eu te dei, as piadinhas internas – maioria sem graça, as pipocas, a mocinha, as baratas, sei lá que mais, e boto numa caixinha, que por enquanto fica ali do lado da minha cama. Aos poucos, na pressa dos dias, eu vou jogando as roupas usadas por cima; por comodidade guardo uma ou outra coisa em cima, e isso vai ficando cada vez mais ao fundo. Mais uma vez, eu dando tempo ao tempo.
Obs.: Só que dessa vez eu não vou te mandar a carta, melhor deixar na caixa, junto com o resto das coisas.
Viva bem, adeus.